abril 28, 2012

Música: Crying Lightning - Arctic Monkeys

Direto do 1º single do 3º CD. A música em questão faz parte do que hoje sabemos ser a sábia influência de Josh Homme (Queens of the Stone Age) no ciclo evolutivo dos Monkeys, que deu um salto maravilhoso em Humburg. Eu sinto que há uma divisão entre os fãs da banda em relação a isso; aqueles que esperavam o som cru, grudento e viciante dos primeiros anos, e outros que abraçaram esse novo lado mais obscuro dos rapazes.

Nada do som explosivo de antes a não ser que os pedais do desert rock de um certo alguém cofHOMMEcof tenha mudado de conceito. Lembra algo das trilhas sonoras de filmes de Quentin Tarantino e/ou Ennio Morricone e os filmes de faroeste em geral. O som atmosférico do trabalho é similar ao que Alex Turner e Miles Kane (The Rascals) fizeram em The Last Shadow Puppets. Se a semelhança foi intencional ou não, o tempo dirá (e os críticos e especialistas também). 

Crying Lightning é hipnótica. O som pesado da linha de baixo e as guitarras são capazes de provocar um pouco de psicodelia para aqueles que não estão acostumados, embora sirvam perfeitamente para o sempre afiado ponto de vista de Turner – cujas letras sempre mostraram um incrível poder de observação e critica. É bem verdade que o velho costume estava mais próximo dos ruídos da vida noturna, os cenários de Sheffield, amanhecer na rua e etc.

Nesta fase, o som sedutor das guitarras se junta à letra para produzir pontos de vistas um pouco mais abstratos, detalhes do cotidiano que podem dizer mais do que o óbvio e inspiram perguntas diversas a respeito de tudo, inclusive se todo esse clima levemente distorcido teria algo a ver com a aparência descuidada que os Monkeys começaram a exibir nessa época. 


Fangirl pira! – Turner, por favorrr, deixa a juba crescer de novo! Ok, isso foi desnecessário.

O solo de guitarra no final fica na sua cabeça por horas, mas cuidado: Crying Lightning não é daquelas que se gosta de primeira, então procure sempre lhe dar outra chance.

NAS ENTRELINHAS

Ok, então que tal falarmos da letra?
A maturidade sonora também pode ser vista nas letras. Nada de noitadas nos clubes. Agora a temática são os relacionamentos entre homens e mulheres. Homens, pobres vítimas emocionais de mulheres que tem adagas no lugar dos saltos, prontas para esquartejar seus pobres corações. Oye, quanto drama! Quer dizer, assim parece quando se resume tudo, porém mergulhando nas palavras de Turner, o perfil toma contornos mais borrados.

Por vezes tenho a impressão de que ele meio que sussurra algo que não está ali, talvez seja esse meu lado que é louca por qualquer tipo de sotaque ou simplesmente, imagino demais. Ou Turner imagina demais. Como sempre há um bolo de palavras coloquiais e entendimentos que nem mesmo meu Cambridge Advanced Lerner’s me ajuda a decifrar por completo.

Segundo alguns, isso é a prova cabal de que a composição dos Monkeys é pobre, rasa e tem mais a ver com rimas (graças a quantidade de rap que os jovens britânicos ouviram, sabe lá Deus porquê) do que com conteúdo.

Crying Lighting by Arctic Monkeys on Grooveshark



Riff liderado pelo baixo (Nick O'Malley). Matt Helders e seus pratos. Alex Turner começa a cantoria todo baixo astral: 
Outside the cafe by the cracker factory – Fora do café, perto da fábrica de biscoitos
You were practicing a magic trick – Tu estavas praticando um truque de mágica
And my thoughts got rude – E meus pensamentos ficaram rudes
As you talked and chewed – Enquanto tu falavas e mascavas
On the last of your pick and mix – O resto dos teus doces sortidos*

Said: "You mistaken if you’re thinking that I haven't been caught cold before" – Dissestes: - Tu estás enganado se pensas que eu não fui surpreendida antes.
As you bit into your strawberry lace – Enquanto mordias o teu alcaçuz de morango**
And then a flip in your attention in the form of a gobstopper – E então uma mudança rápida na tua atenção na forma de um gobstopper***
Is all you have left and it was going to waste – É tudo o que te sobrou e não ias comer
Os riffs se multiplicam e vão para todos os lados, alinhado com a percussão que vai aos poucos dando espaço para:
Your pastimes, consisted of the strange – Teus hobbys, feitos do que é estranho
And twisted and deranged – e distorcido e descontrolado
And I love that little game you had called – E eu amo aquele joguinho que tu chamastes
Crying lightning – ‘crying lightning’**** 
And how you like to aggravate the ice-cream man on rainy afternoons – e como tu gostas de irritar o cara do sorvete em tardes chuvosas
Mais rápido, mais alto e ecos:
The next time that I caught my own reflection – A próxima vez que eu vi meu próprio reflexo
It was on its way to meet you – Foi no meio do caminho quando ia te encontrar
Thinking of excuses to postpone – Pensando em desculpas para adiar
You never look like yourself from the side - Tu nunca parecestes contigo mesma de lado
But your profile did not hide – Mas teu perfil não escondeu
The fact you knew I was approaching your throne – O fato de que sabias que eu estava me aproximando do teu trono

With folded arms you occupy the bench like toothache – Com os braços cruzados ocupastes o banco feito dor de dente
Saw them, puff your chest out like you never lost a war – Os viu, estufou o peito como se nunca tivesses perdido uma guerra
And though I try so not to suffer the indignity of a reaction – E apesar de eu tentar tanto não sofrer de indignidade diante de uma reação
There was no cracks to grasp or gaps to claw – Não havia fissura para me agarrar ou espaços por onde me segurar

And your pastimes, consisted of the strange – E teus hobbys, feitos do que é estranho
And twisted and deranged – e distorcido e descontrolado
And I hate that little game you had called – E eu odeio aquele joguinho que tu chamastes
Crying lightning – ‘crying lightning’****
And how you like to aggravate the icky man on rainy afternoons – E como tu gostas de irritar o cara do sorvete em tardes chuvosas

Uninviting – Nada atrativo
But not half is impossible as everyone assumes you are – Mas tampouco é impossível como todos assumem que sejas
Crying lightning – ‘crying lightning’****
Sombrio sussurro:
Your pastimes, consisted of the strange – E teus hobbys, feitos do que é estranho
And twisted and deranged – e distorcido e descontrolado
And I hate that little game you had called – E eu odeio aquele joguinho que tu chamastes
Crying lightning – ‘crying lightning’****
Crying lightning – ‘crying lightning’
Crying lightning – ‘crying lightning’
Crying lightning – ‘crying lightning’
Explodem pratos, riffs, etc, etc. 

*Pick‘n’mix: Na Inglaterra é como se chama o tipo de compra que se faz em lojas de doces no qual você escolhe vários tipos, coloca numa sacola e pagar pelo peso dos doces sortidos que escolheu. Podem ser também de um só tipo de doce ou bombom.
**Strawberry lace: São as varinhas de alcaçuz com gosto de morango. Aqui no Brasil a maioria é torcida uma na outra.
***Gobstopper: Um doce duro do formato de uma bola.

Bem, do meu ponto de vista, que fique bem claro, a letra tem a ver com uma garota infantil (aqui as referências a doces e brincadeiras tolas) que gosta de brincar com os sentimentos do rapaz em questão. Talvez eles sejam amigos de infância, talvez não. De inicio o tal rapaz acha engraçado, até divertido todas essas coisas loucas que ela faz.

Ela é o tipo de garota que se comporta como uma criança mimada, ou uma vaca mimada (como queiram), mas ele simplesmente ignora isso por um tempo. Então de repente ele percebe que ela se vale dessas artimanhas para controlar as pessoas ao seu redor (“your profile could not hide”) e ela percebe que ele já entendeu isso também (“approaching your throne”).

Então ele tenta se afastar dela/terminar o relacionamento, mas ela parece ainda mais tola não querendo aceitar que isso aconteça. Isso o deixa mais irritado, mesmo não querendo, pois ele não vê conserto para o relacionamento deles. 

Crying lightning pode ter a ver com duas ideais – o crying wolf, ou o shock and awe. O primeiro tem a ver com criar um falso alarme, contar mentiras numa situação séria, algo como passar trote para a policia ou o hospital. O segundo seria uma forma de dominação rápida feita ao confundir os domínios e sentidos do adversário. Ambas interpretações viriam a identificar uma espécie de brincadeira que ela fazia, que poderia ser tanto contar mentiras bobas ou usar das mentiras bobas para se livrar de um problema e/ou irritação.

VIDEOCLIPE

Como videoclipes são bem interessantes, vou deixar a análise cena a cena para outro post. O que posso dizer é que se esperas que o clipe conte uma historinha e te faça compreender melhor o que Turner tentou dizer, azar o teu, pois o vídeo tomou outro rumo. Tão outro rumo, que colocaram os Monkeys num barco à vela e os fizeram tocar no meio da chuva. Eu curto, mas não é excepcional.

Aqui, uma versão live (com uma qualidade do c*cete) e
Aqui, uma versão acústica (com o acréscimo de um verso na canção original). 

JÚRI FINAL

- Lírica: Confusa. Achei difícil decifrar quando ele estava sendo metafórico ou quando estava sendo literal
- Arranjo: Eu não entendo de música, mas qualquer coisa produzida por Josh Homme tem meu total apoio.
 *Repetições: 66 vezes. Não tô de sacanagem.
BANCO DE DADOS

*Música: Crying Lightning
*Artista: Arctic Monkeys
*Composição: Alex Turner
*Produção: Josh Homme
*Estilo: rock, desert rock, rock psicodélico
*Em: Crying Lightning; Humburg
*Duração: 3:42
*Ano: 2009
*Videoclipe

4 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Adorei o texto e achei genial a ideia do blog. Não sei se ainda posta, mas, por favor, continue!

    Esse é o tipo de conteúdo que eu sempre procurei mas nunca achei :)

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    1. Oi César,
      Sim, o MH ainda está na ativa... ou melhor ainda respira com ajuda de aparelhos hehe. Estamos sempre por aqui para responder comentários e dúvidas, mas as postagens são mais difíceis de sair do forno.
      Mas não tema, logo, logo, retornaremos.

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  3. Parabpens! ótimo texto, conseguiu me esclarecer algumas coisas haha

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